6 de fevereiro de 2015

Um crime Inumano!



Papeira é a capital e maior cidade do estado de Vila Nova do Norte, uma cidade movimentada e com mais de 10 milhões de habitantes. Também conhecida pelas suas noites badaladas, com diversos bares e boates de renome, é muito comum encontrar pessoas que já sofreram abusos sexuais ou até famílias que perderam entes queridos por conta da alta taxa de criminalidade.
A polícia da capital tem dias movimentados e em sua maioria é prendendo filhos de grandes ricaços da cidade que usam de sua posição social para burlar a lei e vender drogas e armas para quem quiser e poder pagar.
No dia 15 de fevereiro de 2013, em uma praça do bairro Mata do Segredo, uma criança é encontrada com seu corpo esquartejado e estirado para que todos vissem, Ana Luiza Moreira, 11 anos, filha única do Delegado Moreira, responsável pelo departamento de homicídios.
Todos diziam que era vingança, o delegado logo passou a investigar, mas no dia 14 de novembro de 2014, véspera de um ano do homicídio, ninguém foi preso, ninguém foi considerado suspeito e Moreira se sente impotente, largado pela sua esposa, foi ao fundo do poço carregado pela culpa de não poder salvar sua filha e nem ao menos capturar os responsáveis por tal atrocidade. Seu belo rosto sempre de barba bem aparada e cabelos penteados foi massacrado pela depressão. Tentou diversas vezes superar a perda, visitando clinicas de psicologia, psiquiatria, diversas religiões, mas nada acalmava o seu coração, nada conseguia colocar um ponto final na história da pequena Ana Luiza de 11 anos que deveria estar em casa brincando quando na verdade estava sendo brutalmente assassinada.
Sem saída e sem motivos para viver, Moreira aponta sua pistola calibre 380 para a própria cabeça, posiciona o dedo indicador sobre o gatilho prateado e gelado. Capaz de fazer seus miolos voarem pelos ares, aquela velha e inseparável amiga estava mais uma vez ao lado de seu dono e no momento que Moreira aciona o gatilho um estalo baixo e inesperado foi ouvido. Era um sinal de que não seria ali que Moreira encerraria sua carreira sem todos os pontos finais que ainda faltam. O delegado percebeu o que aquilo significava, levantou-se de sua cadeira, arrumou sua camisa para dentro da calça, cerrou suas pálpebras e falou – É por você minha filha, por você eu vou lutar. – E uma lágrima escorreu de seus olhos que por um instante viram a imagem de sua filha à sua frente, sorrindo, alegre e contente.
                O departamento de homicídios começou a reabrir todas as caixas, arquivos e informações sobre o assassinato de Ana Luiza, mas foi em um cochilo após o almoço, ainda na delegacia, que a pequena Ana Luiza apareceu para seu pai em sonho e com o seu dedo indicador coberto por um pó branco aponta para um desenho feito a gesso na calçada. Moreira acorda e em cima de sua mesa estão fotos de criminosos brutais que conseguiram escapar da justiça com dinheiro e bons advogados, mas um deles chamou a atenção do delegado, em seu ombro ele possuía uma tatuagem do mesmo desenho que viu em seu sonho, um círculo com algumas escritas de língua desconhecida percorrendo toda sua circunferência. Moreira entendeu isso como mais um sinal e também passou a pensar que sua filha pode estar tentando ajudar, pois ouviu isso em uma das religiões que frequentou durante seu período de decadência.
                Durante alguns poucos dias o delegado e uma equipe procuraram informações sobre o homem da foto, descobriram que ele já estava morto e que quem o matou também possuía essa mesma tatuagem, em idas e vindas pela cidade um investigador da equipe descobriu um local frequentado só por pessoas com aquela tatuagem, eram de diversas classes sociais, idade e etnias.
                Extraoficialmente Moreira e o investigador Carlos prenderam um homem que de acordo com informantes era quem convidava novos membros para esse grupo. Durante a conversa sociável não houve nenhuma colaboração, mas diante de tudo o que aconteceu Moreira logo perdeu a cabeça e a conversa esquentou o suficiente para descobrirem algo importante, quem comandava tudo era uma família que se nomeava Irmãos Caali.
                Carlos se comprometeu a ajudar Moreira a qualquer custo e disse que traria os irmãos à delegacia, vivos ou mortos. Comprometido com a missão, infiltrou-se no grupo com muita facilidade e em apenas 4 dias já tinha coletado diversas informações, mas no 5º dia ele foi descoberto e sem saber de nada foi convidado para conversar pessoalmente com os famosos Irmãos Caali.
                Moreira estava dormindo, no dia 20 de dezembro, quando ouviu barulhos estranhos na casa, em seguida um vidro sendo estilhaçado e por fim balbucios de alguém conversando. Levantou-se devagar, pegou sua inseparável pistola e furtivamente desceu as escadas, com uma visão privilegiada pôde notar que era apenas uma pessoa, mas que conversava com ela mesma em um estranho linguajar, aos seus pés estava o corpo dele, o amigo e investigador Carlos Saldanha Figueiredo, morto, desmembrado e com os mesmos sinais da pequena Ana Luiza. Moreira pensou, analisou a situação e antes de dar qualquer passo fechou os olhos e viu sua pequena menina. Olhando para seu pai ela suplica que ele vá embora e deixe que esse monstro fuja e diz que ele não está sozinho. Sem pensar duas vezes e lembrando dos caminhos corretos que ela o fez seguir, preferiu respirar fundo e subir as escadas devagar, ficou em seu quarto apenas cuidando para não ser o próximo.
                Sem dormir, o delegado Moreira sai de seu quarto ainda devagar, apesar de ouvir barulhos como se o homem tivesse ido embora durante a noite após revirar algumas coisas na casa. Cauteloso e preocupado, vai até a sala e novamente vê o seu amigo ali, esquartejado, chama a polícia e resolve que agora isso deveria acabar. Este dia cansativo, de intermináveis buscas e tentando entender o que queriam em sua casa, estava quase terminando, mas não para quem tinha provocado alguém muito perigoso. Durante a noite, voltando para casa, Moreira é surpreendido por uma criança no meio da rua, preocupado para o carro e vai até ela perguntando se estava tudo bem, um menino de aproximadamente 10 anos olhou bem nos olhos do delegado e disse: “Um ano atrás sua filha morreu, hoje seu melhor amigo, quem será o próximo?” Ao terminar a frase o garoto começa a chorar pedindo pela mãe. Sem entender nada o delegado chama um carro da patrulha e pede para identificar e entregar o garoto aos pais.
                Moreira estava cada vez mais próximo, a morte de Carlos foi o sinal de que ele estava com tudo na mão, mas deve ter escondido suas anotações e arquivos para que ninguém os roubasse. O delegado se dirigiu a casa de Carlos, vasculhou tudo e no lugar mais improvável estava uma pasta parda com o nome Ana escrito a mão, era aquilo ali que ele procurava, não estava nem escondida, apenas misturada com os desenhos que sua filha fazia para ele quando era seu dia de ficar com a menina.
                Naquela pasta estavam todas as informações que Carlos coletou, haviam muitas coisas, inclusive um endereço e um nome escrito no rodapé da última folha, com uma escrita rápida e rabiscada: Rua Marli Pontes, 354 – Everaldo.
                Ao chegar no endereço havia uma igreja no local e ao perguntar sobre o nome todos apontaram para o padre que estava no confessionário, então Moreira foi até lá, entrou na cabine e perguntou de forma direta: O que sabe sobre os Irmãos Caali?
                Padre Everaldo saiu de sua cabine, retirou Moreira da outra e o arrastou para uma sala aos fundos da igreja.
- O último que perguntou sobre eles está morto, quer o mesmo destino?
- O mesmo destino dele, foi o destino de minha filha um ano atrás, não tenho mais Natal, aniversário, nem família, portanto, sim, se for preciso eu quero o mesmo destino deles.
- Um homem que não tem nada a perder é um homem perigoso, qual o seu nome?
- Delegado Moreira e o que me move é o desejo de pegar esses bandidos.
- Corrigindo o senhor delegado, demônios, não bandidos.
- Pra mim todos os bandidos são demônios, monstros sem coração...
- Não meu amigo, os Irmãos Caali não são humanos, eles eram de uma família, na antiguidade, que torturava pessoas, desmembrava os familiares de suas vítimas com o intuito de vê-las sofrer antes de mata-las ou para arrancar alguma informação. Quando um homem surgiu e lhes disse que suas almas já haviam sido tomadas deles e que se juntassem à sua jornada ele os perdoaria, o nome desse homem era Jesus Cristo, mas os Caali não aceitaram a ideia e espancaram o pobre rapaz, mas antes que o matassem outro homem apareceu e lhes falou para deixarem ele vivo, que era alguém muito importante e os convidou para ir com ele e lhes prometeu o poder para fazer o que quisessem e quando quisessem, esse era Lúcifer. Depois deste dia os Irmãos Caali entraram no inferno e só saíram de lá para causar dor e sofrimento, como fizeram com você.
- Demônios? Isso não é possível, não acredito em você.
- Acreditando ou não, é melhor não procurar enfrenta-los, mas como imagino que não me obedecerá, pegue esta água, banhe suas munições nela antes de colocar na sua pistola, atire assim que possível não pense duas vezes e em hipótese alguma acredite no que ele lhe dirá.
- Ele? Não são mais de um?
- Em corpo não, eles dividem um corpo bestial que possui quatro cabeças, conforme inscrições antigas de um livro de demônios.
- Certo, muita informação para mim, vou atrás desses irmãos e fazê-los pagar pelos crimes que cometeram, sejam demônios, humanos ou anjos.
- Anjos garanto que não são, mas que eles te protejam nessa cruzada.
                Depois desta longa conversa e do Padre Everaldo lhe entregar um pote com uma certa quantidade de uma água avermelhada que pegou de um armário trancado com sete chaves, o delegado foi embora e dirigiu diretamente para o covil onde o seu amigo estava infiltrado.
                Ao chegar, largou seu distintivo no carro, pegou vários carregadores de munição, molhou todos na água, acreditando desacreditando das palavras do padre, preferiu se garantir e então entrou em um galpão, não mediu esforços, matou quem o ameaçava até conseguir alguém que lhe deu as informações que precisava, sua pequena filha, que apareceu novamente em sua frente e apontou para uma sala do galpão que fica no fundo, subindo um lance de escadas e é para lá que o Moreira foi sem pensar, ao abrir a porta encontrou um homem sentado em uma cadeira, atrás de várias notas de 100 reais e muitos papéis, ele parecia tranquilo e se levantou ao ver o Delegado.
- Vejo que depois de um ano conseguiu nos encontrar, tudo para nos levar presos pela morte de sua pequena e linda filha, é um homem decidido, tenho que admitir.
- Não vim para levar ninguém preso, aqui nem estou como delegado, estou como um pai decidido a vingar a morte precoce de minha filha.
- Como assim? Pretende nos matar? Quero dizer, quer tentar? Não pense que nos matar é tão fácil quanto matar aqueles servos inúteis. – Quando o homem disse isso seu corpo começou a se transformar, como se estivesse derretendo até a altura da cintura, então começou a virar um torso, como de um animal, com seis pernas, logo saíram quatro braços com mãos e quatro cabeças daquele corpo deformado e estranho. – Então venha tentar nos matar.
- O que  é isso? Você é mesmo um demôn... – Moreira se engasga na hora de falar isso e então se lembra de sua filha, se lembra de tudo em poucos milésimos de segundo e ganha força novamente. – Agora que estou aqui, que sei o que é, vou dizer que você cometeu um crime inumano, mas que mexeu com a pessoa errad... – BANG!!! Antes mesmo de terminar de falar, Moreira acertou com um tiro certeiro uma das cabeças de Caali, em seguida, BANG, atirou novamente antes de qualquer reação acertando outra cabeça, mas não teve tempo para outro disparo, quando foi agarrado por dois braços enquanto outros dois começaram a estrangulá-lo, as cabeças mortas logo foram .
- Não irei matar você assim, qual seria a graça? Você mandou dois de meus irmãos de volta ao Inferno e ainda não sei como, uma simples munição de pistola não seria capaz de nos matar, ainda quero essa informação antes de esquartejá-lo.
- É muito simples, basta um coração bom, um motivo justo e você jamais sobreviveria às próximas duas balas.
- Você largou seu distintivo sabendo no quanto teria que ir contra os princípios de ser bom, então não me venha com esse papo, quero saber o que, ou quem, fez isso para você. – Caali então pressiona ainda mais o pescoço de Moreira. – Me fale.
- Não posso falar, mas se me soltar eu posso mostrar. – Caali o solta, mas fica muito próximo para evitar qualquer coisa.
Ao ser solto Moreira corre para o pote que caiu de seu bolso, abre-o e joga diretamente contra os Caali, com a reação assustada e a agonia de uma dor estrebuchante, deixa a arma do delegado cair, que logo é alcançada por Moreira e dispara mais duas vezes contra Caali, acertando suas duas outras cabeças.
Aquele corpo bestial começa a se derramar, como o chumbo sendo derretido no chão e aquilo parecia o fim de uma agonia de um ano e a vingança tão esperada, mas seu coração havia se machucado muito com tudo o que teve que fazer para chegar ali e novamente põe sua arma apontada para sua cabeça e dispara antes mesmo daquela linda menininha aparecer para lhe fazer mudar de ideia ou a arma negar fogo.
A bala entrou em sua cabeça, transfixou seu crânio e sem força para continuar se alojou no cérebro, em uma parte não utilizada pelo corpo humano. Durante aquele milésimo de segundo Moreira soube que não morreria e que sua filha colocou a mão entre a arma e a sua cabeça, deixando o projétil mais lento e menos mortal, pois o poder de fogo faria com que seus miolos se espalhassem pelos ares.
De sua tentativa de suicídio em diante sua vida mudou, seus conceitos mudaram, ele abandonou a polícia, pois não suportava mais ver tantos crimes, largou as armas. Com um dinheiro que guardava abriu uma mercearia em uma cidade mais tranquila e colocou o nome de sua filha no comércio. Viveu uma vida tranquila a partir dali durante mais quarenta e dois anos, quando veio a óbito durante o sono e sua filha estava ali para buscá-lo, bem como esteve sempre durante todos os dias de sua vida.
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