3 de maio de 2011

O Cair do Véu (Cap. 8 - O Lobo das Sombras)

É sempre assim, eu faço algumas coisas boas e ninguém me agradece, mas basta eu tropeçar no cadarço que já é motivo para me atirarem pedras.
Eu estava atrás das outras Pedras Planares e topei de frente com um demônio, era bem feio e muito grande, eu não soube o que fazer, então invoquei Festis para me ajudar, até porque não queria perder tempo lidando com um ser que eu ainda nem conhecia, ele me pareceu forte, mas Festis acabou rapidinho com o problema, ou melhor, começou com um problema.
Hoje eu estou indo em direção ao inferno, acreditem, lá é literalmente o inferno, pois é cheio de demônios, como Festis matou aquele demônio com tanta facilidade e eu não contei para os outros dominadores que tinha pedido ajuda, eles me mandaram para eliminar todos os outros, mas eu resolvi contar a verdade.
Tomei um ralho atrás do outro, de Heliaca primeiro, depois de Canis e em seguida Lacrau. Fui cada vez ficando menor, como se eu me encolhesse, só não entendi o porque, se o objetivo é justamente acumular as pedras para nos ajudar, porque não usá-las no dia a dia?
Não teve jeito, olharam para a minha cara, bravos, e mesmo assim estou caminhando nesta direção, eu sei que estou morto, e desta vez estou mesmo, pois mandaram eu não usar as pedras para eliminar os demônios, teria que fazer por mérito próprio. Ao menos me deram um dossiê sobre eles para ler e uma lança feita que dizem ser mortal para os demônios, disseram algo sobre a lança ser a que feriu Jesus quando crucificado.
Esqueci de comentar que esse “ninho de demônios” fica em outra cidade próxima, em Corumbá, o calor de lá deve tê-los atraído. Fui de ônibus, já estou nas ruas da cidade procurando o lugar, acreditem estou carregando uma vassoura, pois foi o melhor jeito de disfarçar a lança e Simbio está comigo, mas ele fica pulando de árvore em árvore e ainda rindo das “catracadas“ que levei dos dominadores.
Não tendo muitas opções para enfrentar o medo, segui em frente, cuidando cada passo e observando tudo a minha volta, Simbio acompanha também antenado em tudo, para não sermos pegos desprevenidos. O calor me deixou ofegante logo, apesar de que algumas aulas de artes marciais tenham melhorado minha condição física.
A noite começa a surgir, me lembro de uma frase que Heliaca sussurrou em meu ouvido – “É na escuridão da noite que os demônios saem para se alimentar de carne, tome cuidado” – mas preferia não ficar pensando nisso, só causava mais medo.
Após quatro cansativas horas à procura dos demônios, entrei em um beco onde diziam haver uma casa sinistra, suspeitando do local eu fui verificar. Na porta já havia muitas marcações estranhas, como símbolos pintados de vermelho. Não sabia como agir, se batia na porta ou simplesmente entrava, mas não foi necessário muito tempo para que o problema fosse resolvido, um homem de 1,55m de altura saiu do local mantendo a porta aberta, então eu entrei, Simbio estranhamente resolveu ficar para trás dizendo que ia ficar cuidando o perímetro.
Andei por vários corredores, via prostitutas se drogando e transando com homens, mulheres ou até os dois ao mesmo tempo. Haviam crianças servindo bebidas e homens vestidos de padres dançando sobre uma plataforma alta. Era um local totalmente pervertido e perturbado, com certeza tinha encontrado o lugar, o problema é que assim como encontrei os demônios, os demônios também me encontraram, pois houve um segundo demônio que viu a invocação de Festis para matar aquele primeiro demônio, com isso eu havia virado um alvo.
Aqueles seres estranhos, corpulentos, com chifres e odor forte se aproximavam de mim, um demônio aparentando ser um tipo de líder gritou bem alto e a casa silenciou, todas as atividades cessaram naquele momento, os  demônios me cercaram.
Durante um instante, a cena ficou paralisada, os meus pensamentos iam de “se eu bater naquele ali primeiro consigo pular por ali e fugir por aquela janela” até “estou morto”. Meu pensamento logo foi interrompido, um grande lobo negro surgiu abocanhando um dos demônios e lançando-o contra a parede, que cedeu abrindo espaço para uma boa briga que começou em seguida.
Eu só comecei a ver demônios sendo lançados para cima e para os lados, alguns tentavam fugir e outros tentavam matar aquele lobo, só me afastei e esperei, quem sabe ele não me mataria se não demonstrasse medo.
Neste momento, excluso em um canto da casa sem ouvir uma palavra sequer de Simbio em pensamentos, aquela voz suave como a brisa falou comigo “Me solte, é Doran, a Sombra” e logo percebi que se tratava de Quia falando comigo e a libertei, assim como Festis. Depois de alguns segundos os demônios simplesmente sumiram, alguns viraram pó, outros desapareceram em meio a buracos negros criados por Doran, o lobo. Após toda a confusão Festis, Quia e Doran se falavam, por incrível que pareça aquele lobo falava, depois eles se aproximaram de mim e Doran se tornou uma pedra ônix.
- Quia, como Doran conseguiu sair da pedra sem ser chamado, como sempre faço com você? –Pergunto sem entender muito bem.
- Se nós estivermos em pleno poder, totalmente recuperados, conseguimos nos libertar, como Doran viveu neste beco por muito tempo, cercado de sombras, isso o fortaleceu muito.
- Mas porque você não se recupera se vive em contato com o ar?
- Porque o ar de que preciso não é este, poluído, infestado de pragas, o meu ar é puro, nem no céu eu encontro tal fonte de energia. – Diz Quia logo antes de Festis e ela se tornaram pedras novamente.
Guardei as pedras e liguei para Lacrau informando o sucesso da missão, expliquei o que ocorreu e por incrível que pareça não tomei mais nenhum sermão. Por fim eu continuava vivo, feliz e com mais uma das pedras como já era pretendido para este dia, mas ainda achando muito estranho as atitudes de Simbio.
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