22 de novembro de 2010

O Cair do Véu (Cap. 5 - A Pedra Indestrutivel)


                Depois de vários encontros com seres sobrenaturais, de ser levado a força para uma floresta e pensar que estava morto, depois de encontrar um animal mágico e descobrir que virei um dominador do macaco que nomeei de Simbio e principalmente depois de receber um apelido tão óbvio de Primata, voltei para Miranda, mas dessa vez para morar.
                Simbio, um macaquinho branco de um metro de altura talvez, me ajuda muito e anda ao meu lado dia e noite. Depois que voltei já tive outros encontros, principalmente com vampiros, que são mais comuns por aqui, surgem como pragas e cada vez mais dominam alguns becos escuros e sombrios.
                Mas hoje não estou aqui para contar sobre vampiros, lobisomens ou macacos mágicos e apelidos estranhos, estou aqui para falar do dia que topei com um ser diferente, um humano com a pele pálida e pequenos insetos saindo de uma orelha e entrando no nariz, um odor fétido e fazia uns grunhidos muito estranhos. Logo soube do que se tratava, porque desde a primeira vez que entrei no mundo sobrenatural, todas as historinhas de terror tinham ganhado vida, neste caso eu estava lidando com um ser chamado de Zumbi.
                Fui andar pela cidade no meio da noite, mais especificamente na Avenida Afonso Pena, para eliminar alguns vampiros que andavam por aí atacando os moradores, quando encontrei um que estava mordendo uma pessoa, jogou ela no trilho do trem, era uma mulher, bonita e sensual em seus aparentes trinta anos. O vampiro fugiu, outro dia também deixei ele escapar, mas desta vez foi porque a vítima ainda estava viva e minha prioridade seria salvá-la.              
Apoiei meus pés no madeiramento que cerca os trilhos e logo estava lá embaixo, mas a única coisa que vi foi o corpo da mulher ser drenado para dentro da terra, não consegui nem chegar perto dela. Comecei a cavoucar e pedi para o Simbio me ajudar, mas era tarde, havia perdido uma para aqueles vampiros desgraçados, mas sabia que isso não tinha a ver com vampiros e sim com algum outro evento sobrenatural.
                Corri logo para pesquisar com as fontes que tínhamos em outras cidades ou países, liguei para várias pessoas, inclusive um homem chamado Tulio que tem um conhecimento absurdamente extenso sobre o sobrenatural, mas nem ele soube me dizer o que era, apenas disse que já havia ouvido histórias destas, mas não terminaram bem. Isso aconteceu com uma cidadezinha no interior de Goias que chamava Chorosa, mas tem muito tempo que ela não existe mais, seus habitantes simplesmente foram sumindo aos poucos e outros relatos diziam que amigos ou familiares começavam a ficar estranhos e com uma fome fora do normal, querendo sempre carne crua. Ele não soube dizer o que era por não ter sobrevivido ninguém, mas deixou no ar a sensação de estarmos lidando com algo muito perigoso. Tulio também adicionou que não eram zumbis, porque todas as histórias inventadas têm relação com o mundo sobrenatural e esses não chegavam nem perto de serem os mortos-vivos das histórias de terror.
                Todas essas informações me deixaram preocupado, será que Miranda deixaria de existir logo? Não, eu não permitira isso.
                No dia seguinte ao estranho fato e depois de muito mais pesquisas que fiz, estava circulando pela cidade quando vi aquela mulher andando na rua, fazendo compras e conversando com os outros como se nada tivesse acontecido, achei estranho e fui conversar com ela.
- Boa tarde, meu nome é Gabriel, ontem foi você que vi andando ali na avenida de noite né?
- Oi, desculpe, eu te conheço?
- Na verdade é que te vi ontem na avenida tarde da noite e te vi cair no trilho do trem, mas não te encontrei depois, você está bem?
- Trilho do trem ontem? Não, nem estive na avenida, fiquei em casa dormindo.
- Ah tá. Ok então, devo tê-la confundido, me desculpe.
                Virei as costas e andei um pouco, então parei e resolvi segui-la para descobrir se alguma coisa andava errada com aquela mulher. Simbio ficava andando pelas árvores ou telhados para não chamar a atenção por ser de tarde, algumas poucas vezes ele ficava ao meu lado.
                Durante a caminhada dela percebi que parava em toda lanchonete que passava, perguntava alguma coisa e ia embora, então certa vez ela parou e comprou um lanche. Esperei ela sair dali e perguntei para o atendente que lanche ela havia pedido, pois o tinha visto e parecia saboroso, ele me respondeu que era um X-Picanha, mas o dela ela pediu com a carne quase crua e para não perder a venda o atendente repassou o pedido.
                Comecei a anotar os dias que se seguiam tudo o que ela fazia, eu sempre estava seguindo-a, fosse de dia, tarde ou noite, Simbio cuidava dela enquanto estava em casa, pois ele podia ficar nos telhados sem ser percebido.
                Durante sete dias eu a segui e anotei tudo, percebi que com o tempo ela ia aumentando seu apetite e perdendo suas funções cerebrais, no oitavo dia ela foi internada por estar com os batimentos quase no zero e sua pele estava muito gelada, a mãe dela pensou que estava morta quando chamou a ambulância.
                Desde então já haviam se passado mais três dias e ela sumiu do hospital junto com um enfermeiro, muitas hipóteses foram lançadas até a mais sórdidas de todas, que seria se a mulher tivesse morrido e o enfermeiro roubou o corpo para poder usá-lo como objeto sexual, mas era claro que eu já sabia do que se tratava.
                Só para relembrar, atualmente na história já se passaram dez dias após o incidente da mulher, ninguém mais havia tido mudanças de comportamento e nem sumido até esse caso do enfermeiro, então fiquei preocupado e comecei a vasculhar as ruas e principalmente onde os trilhos passavam, mas voltamos a história.
                No dia 2 de novembro, também conhecido como Dia de Finados, décimo primeiro dia depois de tudo, muitas pessoas foram aos cemitérios da cidade e enquanto eu ainda andava pela rua quando meu celular tocou. Era o Tulio, aquele cara que comentei que é especialista em sobrenatural, ele havia descoberto algumas coisas novas sobre o caso e queria compartilhar. A conversa foi mais ou menos rápida, ele disse apenas que descobriu que no dia 20 de outubro um trem carregado de carvão havia passado por Miranda, mas nele havia muito mais do que carvão, eles estavam transportando corpos de pessoas que morreram em um incidente numa fábrica longe dali, sumindo com os corpos a fabrica não seria responsabilizada por todos os problemas causados, os corpos estavam todos infectados de material radio ativo e sua decomposição era muito rápida, tanto que na chegada do trem ao ponto final os corpos já haviam virado apenas ossos.
                Comecei a suspeitar que esse material possa ter caído no solo quando o trem passou, mas mesmo assim não explicaria o porquê dela ter sido sugada para dentro da terra. Alguma coisa me dizia que ainda havia muito mais por trás disso e não demorou muito para eu descobrir.
                No dia de finados mesmo, ainda no período da tarde eu estava pensando sobre tudo, sentado no banco da praça em frente a igreja quando ouvi uns grunhidos estranhos e fui verificar, andei por duas quadras em direção oposta a praça e o encontrei. Eu via um homem, não consegui identificar a idade aproximada, mas ele estava com as costelas para fora da carne e segurava na mão esquerda um pedaço das tripas que estavam caindo para fora de sua barriga, sua pele estava decomposta parcialmente e os músculos da face apareciam como caminho para os insetos que circulavam de suas orelhas para seu nariz e boca, um ser de aparência asquerosa e odor fétido.
                Olhei por toda minha volta e não vi ninguém circulando nas ruas, ao menos não por ali, apenas um pequeno gato que passou perto daquele monstro e pude sim confirmar tudo o que já havia visto. O homem pegou o gato com sua mão direita e o enrolou nas tripas que segurava para mantê-lo preso, começou a comer o animal vivo, mordendo a orelha do gato e puxando com voracidade, consegui ouvir os gemidos de dor e agonia do animal enquanto ainda não morria de hemorragia, fiquei ali assistindo aquela cena assustadora até o momento em que não pude me conter e vomitei no chão, ao lado de uma árvore. Estava com o estomago revirado e então parti para cima do homem, lembrei-me de que nas histórias já vistas em filmes, os zumbis só morrem com danos na cabeça, pois o cérebro é o único órgão que continua vivo.
                Durante os primeiros passos para cima do zumbi eu pensei que estaria bem e aquela luta seria vencida com facilidade, mas logo ouvi Simbio me chamando e avisando que algo estava errado, alguém mais estava ali perto, ele sentia o mesmo cheiro vindo de outra direção. Tentar ficar atento e continuei indo até o morto-vivo, mas minha atenção não foi tão boa, pois fui surpreendido pela mulher, é, aquela mulher mesmo, do começo da história, ela estava fedendo e com sua carne também em decomposição, mas seus movimentos eram muito mais rápidos e eficientes, sua coordenação ainda não havia acabado por completo, imaginei que talvez aquele homem fosse o primeiro que chegou à cidade, por isso já estaria naquele estado.
                Comecei um combate contra a mulher, nunca havia batido em uma antes, mas nesse caso era essencial que eu o fizesse, porque senão eu poderia acabar morto, quer dizer, poderia acabar morto-vivo. Simbio me ajudou no combate quebrando galhos e me dando para usar como taco ou lança e também distraiu a mulher para que eu conseguisse perfurar seu crânio com um dos galhos pontudos que o macaquinho havia jogado pra mim. Por sorte havia eliminado ela, que era mais ágil e forte, agora faltava apenas o homem, meio homem, nem sei como chamá-lo.
                Fui andando para cima dele de novo e quando me aproximei bem ele olhou com seus olhos quase inteiramente brancos e sussurrou algumas palavras que não pude entender, ficou ali, imóvel, segurando suas tripas e mastigando o resto de carne do gato que ainda estava entre seus dedos também decompostos.
                Achei que ele viria para cima de mim, tentar me matar ou comer minha carne, mas pelo visto não, então continuei minha aproximação, peguei meu celular e fotografei o monstro algumas vezes para enviar ao Tulio, aumentando assim sua biblioteca sobrenatural.
                Quando estava quase na frente do homem, ele me olhou nos olhos, inclinou um pouco a cabeça e começou a fungar, como se tentasse sentir meu cheiro. Fiquei de prontidão e Simbio ficava só de longe me cuidando também. O zumbi ergueu sua mão direita em direção a suas costelas expostas, soltou o gato que comia e tirou um papel todo ensanguentado e com pedaços de carne grudados, soltou o papel no chão e nesse mesmo instante ele me atacou.
                Foi uma luta difícil, pois eu estava muito próximo dele e foi difícil esquivar, ele conseguiu me segurar usando aquelas tripas como laço para prender meu braço, mas Simbio logo correu e começou a arranhar e bater na cabeça do zumbi que me soltou e tentou pegar o macaquinho, mas não deixei, foi então que o matei com o pedaço de pau que eu estava segurando, bati em sua cabeça com tanta força que seus miolos foram esparramados no chão se misturando ao gato desmembrado e mastigado, por pouco não acerto Simbio.
                Então peguei aquele papel com uma folha de árvore, para não tocar naquele sangue nojento, e o levei embora dali, antes de ir os corpos já haviam sumido e virado pó e ossos, juntei os restos e coloquei em uma sacola bem grande e preta, que havia sido deixada com lixo por alguma casa da vizinhança, e enterrei.
                Agora eu estava sujo de sangue, fedendo e com um papel ensanguentado na mão que não sei por que aquele zumbi me entregou. Fui para casa e tomei um banho, estendi o papel sobre a mesa e deixei secar para que pudesse ler melhor o que estava escrito. Enquanto não conseguia decifrar a escrita continuei de vigília para evitar que mais algum zumbi conseguisse chegar a Miranda, eu não deixaria ninguém sumir com essa cidade, nem mal algum torná-la inabitável ou sombria, o meu papel ali era proteger, eu era o Guardião de Miranda.
                Como Guardião testei de diversas formas o solo dos trilhos e descobri uma variação em apenas uma pequena área, ali eu cavouquei e encontrei uma pedra, era verde, de aproximadamente cinco centímetros e em seu interior uma fumaça ficava voando de um lado para o outro, peguei a pedra, tampei o buraco que fiz no terreno e liguei para Tulio, que me contou uma história que já tinha ouvido. Existe um tipo muito específico de Morto-Vivo que não é bem um deles, mas é um corpo sem alma, a alma é colocada dentro de uma pedra para que ele se torne imortal, enquanto a pedra não for quebrada, o corpo vive, o nome desse ser é Lich.
                Se matei dois zumbis e eles morreram de verdade, então o Lich ainda está vivo, preciso encontra-lo, ele que deve estar envolvido nestes casos de zumbis, ou simplesmente destruo a pedra e encerro toda essa história, já havia se passado alguns dias e nenhum outro zumbi havia aparecido. Coloquei a pedra no chão e com uma marreta bati com toda minha força, um estouro aconteceu e a marreta praticamente virou pó, enquanto a pedra ficou intacta, eu teria que descobrir um jeito de destruir aquela pedra, decidi guardá-la comigo e estudar.
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