23 de fevereiro de 2014

Mansão Dorf (Deus não existe mais! - Cap. 2)

A cidade de Canavial recebe o estranho Giovani que, com o descaso e a discriminação de todos, não é assunto de muitas conversas, passando muitas vezes despercebido por todos. Seu objetivo é saber mais sobre tudo e não ser notado era bom, utilizando sua percepção e sabedoria foi capaz de descobrir que o cemitério Mansão das Flores era o ponto central de toda a sujeira que cobria a cidade de Canavial, mas havia um ponto em especifico que lhe interessou muito, a casa de Frank.
Um grande foco de magia e traços da dimensão paralela sombria rondavam Frank, por onde andasse, mas sua casa havia sim uma forte, uma imensa, força negra que ele era capaz de ver, sentir e até ouvir. Sussurros e gritos ecoavam daquela casa, ninguém ouvia na cidade, mas Giovani já havia se libertado da fina camada que nos mantém iludidos com um mundo lindo e iluminado, ele era capaz de ouvi-los.
Frank continuava sua vida, mas sabia que havia algo de estranho, sentia uma pressão nos braços, sentia as pernas pesadas e também um aperto no peito, não sentia mais vontade de brincar e a cada dia se mostra mais distante de sua família e amigos. Após chegar da escola, subiu ao seu quarto, abriu sua gaveta de cuecas, enfiou a mão no fundo e tirou um par de meias enroladas, ao desenrolar caiu de dentro um pequeno pedaço do espelho da mansão, não refletia mais nenhuma imagem e as gravuras continuavam escritas no pedaço do espelho.
- Frank? É você? – Uma voz ecoa e assusta o menino.
- Quem é? Quem está falando comigo? – Responde assustado.
- Frank, acorde, porque está dormindo? – Continua a mesma voz chamando.
- Mas eu não estou dormindo, estou aqui, quem é você? – O menino continua esperando resposta.
- Ele não está acordando, só ele pode nos ajudar, porque não acorda? – Ecoa outra voz mais grave, como se houvesse um diálogo.
- Não sei, ele deve estar sob efeito de alguma magia. – A primeira voz responde.
- Nãããããooo... os médicos nos acha... – O diálogo foi interrompido e um longo grito de dor foi ouvido por Frank, que não entendeu nada.
Assustado o menino guarda o pedaço do espelho novamente no local onde estava e desce correndo para almoçar, ele prefere não comentar com seu pai.
Giovani estava circulando a casa pela manhã quando o menino chegou e ouviu toda a conversa e também não entendeu nada, mas sabe que não era com esse Frank que estavam falando, com quem seria? Essa é a próxima resposta que ele buscaria, bem como a de querer saber de onde saíram essas vozes e quem seria esse médico.
Após três dias que Giovani estava na cidade ocorreu mais uma série de crimes, mas desta vez foram quatro crianças assassinadas, todas com os mesmos sinais dos três anteriores e sem identificação nenhuma. A polícia suspeitou que aquele mendigo tivesse algo a ver com as mortes e foi em seu encalço para descobrir essa possível ligação, esse período durou dois meses e nesse tempo Giovani já sabia que estavam lhe perseguindo e também descobriu algumas coisas importantes sobre tudo o que vinha acontecendo, como por exemplo que Frank ainda possuía algo de extremo valor para suas pesquisas, um pedaço do espelho da mansão.
Quando o menino estava dormindo Giovani entrou pela janela e conseguiu pegar o pedaço do espelho, mas quando estava descendo a polícia o prendeu, todos perguntaram se algo havia sido roubado, mas Frank estava escondendo aquele pedaço de espelho e preferiu dizer que nada tinha sumido, uma noite só na cadeia e o liberaram por falta de provas ou acusações, mas Frank não entendia porque só o espelho e resolveu ir atrás daquele mendigo escondido durante a noite.
Em um beco da cidade, no escuro, surge uma pequena sombra, Giovani está ali deitado e só fica observando atentamente.
- Ei, seu mendigo, eu sou o garoto de quem roubou o espelho, não te dedurei, mas quero explicações. – Um silencio profundo seguiu e então o garoto continuou. – Ninguém sabe tanto quanto eu, estou desesperado e não posso contar com ninguém, meu pai nunca acreditaria e meu irmão é um besta que só quer ser melhor que os outros. Tenho sentido um vazio imenso no peito desde o dia que quebrei esse espelho, vi coisas, ouvi outras e mesmo assim segui em frente na minha tentativa de provar para o meu irmão que eu era corajoso. Sei que tudo isso é culpa minha, desde o dia em que demoliram a mansão para construir esse cemitério vejo a cidade diferente, sinto um cheiro horrível em todo canto e já vi o céu cinza e as arvores todas apodrecidas. Não sei se realmente não está aí, mas espero que esteja, tenho medo e não sei o quanto vou aguentar, as vezes até sinto que eu sou o culpado por essas estranhas mortes e meus episódios de sono profundo por um dia inteira. Por favor, sei que pode me ajudar, pude perceber que é um bom homem e está buscando uma coisa que talvez possa lhe ajudar. – O menino aguarda um pouco e então se vira e vai embora dizendo uma última frase. – Sinto que Deus não existe mais em Canavial!
No dia seguinte o menino acorda para ir à aula e ao chegar nos portões da escola vê o mendigo sentado em um banco de uma praça, ele acena com a mão para que o menino sente ao seu lado, Frank percebeu que foi ouvido na noite anterior e foi sentar-se com o estranho mendigo.
- Ouvi tudo o que disse e estou aqui para tentar ajudar sua cidade, mas algumas explicações preciso buscar em outros lugares, portanto peço que aguente mais um pouco, voltarei para salvar você e todos daqui. – O mendigo diz poucas palavras, levanta e sai andando com sua mala pesada e uma pequena trouxa nas costas.

                Frank entra na escola e se sente aliviado, com forças para esperar mais um pouco, rezava para que ele voltasse logo, mas lembrou que suas preces não tinham destino, ele sabia que não havia um Deus zelando por eles naquele momento, mas pôde ter certeza que havia um anjo, vestido de mendigo.
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