19 de março de 2011

O Cair do Véu (Cap. 7 - Ar Puro e Empatia)


               Houve um tempo, muito antes de toda a civilização que conhecemos existir, onde bruxas, seres extraterrenos, humanos e extraplanares andavam livremente sem se incomodarem uns com os outros, haviam suas rixas e brigas, mas todos viviam em paz. Estes seres extraplanares possuíam um poder absoluto, um poder que poderia facilmente causar muitos estragos no mundo, mas isso não era problema, pois eles eram extremamente serenos e amigáveis, seus poderes nunca foram usados contra a civilização e nem contra os de sua mesma raça, apenas para defender o mundo que conheciam, eram como guardiões.
                Certo dia um bruxo maligno, chamado Mirgh, descobriu uma forma de eliminar todos estes seres do planeta, abrindo caminho para fazer a maldade que quisesse, mas sete extraplanares conseguiram sobreviver a essa magia, porém ficaram muito fracos e foram obrigados a dormir por muito tempo para recuperarem suas forças. Para que pudessem descansar eles precisariam armazenar seu poder em algum objeto simples que não despertasse nenhum interesse no bruxo Mirgh e descartar seus corpos, já que eles faziam parte de algo muito maior do que a simples forma física. Eles escolheram sete pedras preciosas.
                Gilden, um grande ser avermelhado, de aparência demoníaca e com grandes chifres se tornou um pedaço de rubi não lapidado. Doran, um imenso lobo negro, se tornou uma ônix. Festis, um palhaço humanoide com uma boca imensa, se tornou uma ametista. Zerus, um felino majestoso e branco se tornou uma pérola. Trilde, um grande ser de aparência rochosa, se tornou um diamante bruto. Rediz, uma sábia coruja, se tornou uma esfera de quartzo. Por fim Quia, de aparência totalmente humana e indescritível beleza, se tornou uma opala lapidada. Todas as pedras possuíam tamanhos parecidos, exceto o rubi e estas pedras ficaram todas escondidas, separadas, por muito tempo, as pedras planares.
                Esta história foi contada por Canis, antes de me dizer que eu precisava encontra-las, legal ele não é? Pois então, é isso aí, agora eu preciso encontrar sete pequenas pedras que não faço nem ideia de onde estejam. Simbio diz ter ouvido falar sobre isso nas florestas de onde ele veio, acho que vou começar por lá.
                Canis me deixou uma grana, alias, muita grana, disse que era para pagar os custos da minha viagem, parti de avião para uma floresta no meio da Ásia, um nome parecido com Floresta de Kinsk. Ao chegarmos lá dei de cara com alguns EHCOS rondando o lugar, mas fui bem tranquilo, andando calmamente e espiando-os. Nenhum havia me notado ou tido interesse em me matar, mas eu tive interesse em uma coisa, um aparelho que um dos soldados levava consigo, era um tipo de radar, me fez lembrar do desenho Dragon Ball que tinha aquele radar para achar as esferas do dragão. Será que era para isso? Será que estavam atrás das pedras também?
                Simbio me puxou para o lado quando um dos EHCOS começou a se aproximar, saímos dali logo e paramos para conversar.
- O que acha daquele aparelho Simbio?
- Não sei não, mas parece um detector sim, só não sabemos o que ele detecta.
- Acho que eu descobri. CORRREEEEEEE
                Simbio pulou para cima das árvores enquanto eu conseguia escapar dos golpes esquartejadores do EHCOS 0456 que me seguia, ele tinha um machado imenso nas mãos. Peguei um pedaço de pau, agora já com alguma noção de técnicas em combate, e me esquivei de sua machadada pulando para cima dele, acertando-lhe com o porrete improvisado, ele tonteou, mas logo estava me atacando novamente.
                Simbio atirava algumas frutas em sua cabeça para distraí-lo, foi então que consegui acertar alguns golpes naquele poço de músculos, mas o que percebi ter feito mais estrago foi o que atingiu suas partes baixas, continuei batendo ali até que ele caísse e então o desmaiei com um pedaço de pau maior que o anterior. Ficou mais fácil depois de um ano de treino, quero treinar mais e mais, apanhar não mais. Peguei o aparelho que ele segurava e vi que ele me seguia porque o aparelho apontava para mim ou para o Simbio, que estava logo acima, em uma árvore.
                Simbio desceu e correu para o lado, prevendo o que eu ia dizer, e o ponteiro do marcador mexeu também. Era Simbio que estava sendo marcado ali, mas não sabíamos o porque até que passei a mão nos pelos do macaco e caiu uma pequena pedra azulada.
- Achamos a opala. – Disse Simbio se apressando. – Vamos fugir daqui logo.
                Guardei a pedra, voltei para o local onde o jato particular me esperava e fui embora sem que outro EHCOS me seguisse. Pura sorte ter encontrado esta pedra tão facilmente, liguei logo para Canis e avisei que consegui a opala.
- Você está com ela nas mãos?
- Sim, estou segurando enquanto converso com você.
- Então diga a frase “sou inimigo de Mirgh e preciso de sua ajuda”.
- Para que isso?
- Apenas diga.
- Sou inimigo de Mirgh e preciso de sua ajuda. – A pedra brilhou, o interior do avião foi tomado por uma ventania que logo se acalmou e ao meu lado se encontrava uma linda mulher, ainda nua, mas logo lhe cedi um short e uma camiseta que carreguei comigo para eventualidades.
- Me chamou Inimigo de Mirgh? – Disse a mulher com voz suave.
- Você é Quia?
- Sim e você é?
- Meu nome é Gabriel, mas conhecido por Primata e este ao meu lado é Simbio.
- E por qual motivo você me despertou?
- Eu preciso saber como encontrar as outras pedras planares, pretendo reunir todos vocês para me ajudarem a enfrentar as forças do mal. – Digo sem saber ao certo se era esse motivo de estar juntando as pedras.
- Você provou ser forte e corajoso, mas infelizmente não posso lhe dizer onde estão todos os outros, apenas posso lhe assegurar que o diamante de Trilde se encontra em um tipo de caverna que fica abaixo do solo, próximo daqui, posso sentir sua energia.
- Certo, mas sabe onde fica essa caverna?
- O seu mundo é bem diferente do meu, não tínhamos estas construções imensas que alcançam vários pés de altura, muito menos aves mecânicas que sobrevoam as cidades, como esta que estamos. – Diz Quia olhando pela janela do jatinho. – Não tenho como lhe dar uma localização, mas quando estivermos perto eu lhe mando um sinal em seus pensamentos. Agora vou me recolher para não chamar a atenção.
- Ok, obrigado Quia. – Quando concluo minha frase Quia simplesmente se torna uma corrente de ar que é drenada para dentro da pequena opala lapidada. Então pedi para o piloto pousar na primeira cidade que conseguisse. – Você ouviu Canis? Ainda está na linha?
- Sim Primata, ouvi tudo. Vamos continuar pesquisando, enquanto isso você preste atenção em seus pensamentos. – Diz Canis preocupado de eu não entender o sinal que Quia enviará.
                Depois de ter apanhado muito eu pesquisei bastante sobre aquele ser estranho meio cobra e meio humano, seu nome na mitologia é Naga, existem vários deles circulando por aí, mas sempre nos esgotos ou na escuridão da noite. Acho que fiquei com um pouco de raiva destes seres, como queria encontrar com um deles para ele ver o que é bom, mas agora devo voltar a me concentrar, Quia disse que o diamante se encontra em um tipo de caverna no subsolo, mas ela não conhece as coisas de hoje de em dia, então quer dizer que pode ser um prédio que construíram para baixo da terra ou talvez um estacionamento, desci na cidade mais próxima e comecei a circular esperando ela me dizer que estava perto, mas nada me vinha à mente, eu me encontrava em uma cidade na África do Sul chamada Adis-Abeba, capital da Etiópia.
                Após um tempo andando eu percebi que seria muito difícil encontrar estacionamentos ou prédios ali, mas eu fiquei com muita pena da população, muitos passavam fome. Encontrei uma mina, não sei de que exatamente, mas me toquei de que Quia poderia estar falando de uma dessas, entrei um pouco na mina, mas não recebi nenhuma mensagem por pensamento, continuei andando. Mais a frente eu encontrei um imenso buraco no solo, aparentemente causado por algum tipo de explosão, percebi que haviam vários buracos de grandes diâmetros, o suficiente para uma pessoa entrar agachada, então me aproximei mais e mais até que ouvi um zunido muito alto e um pensamento brotou em minha mente “É aqui!”.
                Tirei a pedra do meu bolso e disse novamente: “Sou inimigo de Mirgh, e preciso de sua ajuda.” Logo Quia surgiu novamente com uma pequena tempestade de vento e apontou em direção ao buraco que estava à minha esquerda.
- O diamante está aqui?
- Não, eu me enganei, o poder que senti parecia o de Trilde, mas aqui se encontra a ametista de Festis. Os seus poderes confundem até mesmo nosso grande Gilden.
- Certo, então vamos entrar. – Falei já dando o primeiro passo no buraco.
- Não, aí dentro pode ser perigoso, deve haver seres morando, este buraco não foi cavado por humanos e estes ossos não são dos moradores e sim de suas presas. – Diz Quia apontando, dentro do buraco, uma boa quantidade de ossos humanos amontoados. – Além do mais eu nã...
- Isso quer dizer que muitas pessoas morreram aqui não é? – Pergunto espantado e interrompendo a frase de Quia.
- Ou pode querer dizer que alguém joga os restos da comida aqui. – Responde ela com sua voz fria como o vento.
- Independente do que vive ou come aqui, devemos entrar para resgatar a pedra de Festis.
                Os primeiros passos dados para dentro do calabouço foram tranquilos, mas logo avistamos montes maiores de ossos, seguimos calmamente, passos curtos e evitando fazer barulho, pensei até que Simbio não tinha entrado, pois não ouvia nada dele, quando olhei para trás para vê-lo uma sombra correndo desmoronou a entrada da caverna e tudo se agitou como um terremoto, pedras caindo e terra voando em nossos olhos. Simbio correu para mais perto  e Quia afastou a terra com vento para não afetar nossa visão, mesmo não parecendo muito bem.
                Após andar um pouco pude notar que Quia enfraquecia, como se estivesse ficando sem ar, mas como um ser que tem a magia AR poderia ficar sem ar enquanto eu, um mero humano, ainda estou bem? Resolvi fingir não ter notado e continuei andando, sem saber quem era o dono daquela sombra. Simbio me perguntava com tom de medo o que poderia ser que moraria em um lugar assim, um grande túnel que só se anda agachado ou engatinhando e que tem uma extensão absurda, pois estávamos andando já fazia um bom tempo e Quia cada vez mais parecia cansada.
                O túnel começou a alargar, Quia, que estava atrás de mim começou a andar ao meu lado e pudemos ficar de pé, até que chegamos ao fim do túnel, onde havia um grande salão oval abaixo da terra, tão grande que fiquei ainda mais confuso em como teriam feito aquilo e quem moraria ali, mas quando de repente Simbio começa a bocejar e em um segundo caiu no chão dormindo. Quia cansada e aparentando fraqueza logo foi sugada novamente para a Opala e eu estou aqui sozinho, olhando mais ossos espalhados pelo chão e vendo outros vários túneis que chegam no mesmo lugar, o grande salão subterrâneo. O medo tomava conta de meu coração, mas eu não parei, andei até que pude avistar a pedra, uma linda pedra não lapidada que me proporcionava felicidade e ao mesmo tempo tristeza, medo e ao mesmo tempo coragem, eu estava com os sentimentos e sentidos totalmente bagunçados, o que aquilo significava eu não sabia.
                Segurei a pedra em minhas mãos e disse em voz alta “Sou inimigo de Mirgh, e preciso de sua ajuda”.
                Uma risada longa e alta ecoou pelo lugar, de dentro da pedra um sapato é cuspido para o chão, do sapato saem dois braços como que impulsionando para que o resto do corpo saísse também, e em seguida eu estava diante de um palhaço, literalmente, com uma boca que ultrapassava os limites do rosto e roupas extravagantes.
- Você me chamou, hahahaha?
- Sim, eu vim buscá-lo, estou resgatando todos vocês – Mostro a opala de Quia -  Quia estava comigo, mas aparentemente perdeu forças, não sei porque, precisamos sair daqui logo.
- Quia não pode fica sob a terra, seu poder é de ar, a terra lhe enfraquece, assim como se jogar uma vela acesa na agua, ela irá se apagar, kkkk, mas com qual finalidade quer nos unir, Mirgh está atacando novamente?
- Para combater as forças do mal, já se passou muito tempo desde o incidente com Mirgh, ele nem está mais vivo pelo que me consta, agora estamos enfrentando outros problemas e preciso de vocês.
- Quem o matou? – Sua boca enorme, de aparência feliz, logo estava curvando para baixo demonstrando profunda tristeza. – EU queria tê-lo matado, com minhas próprias mãos, e pés, e braços, e todo o resto do corpo.
- Não se preocupe, o importante é que estamos em outra época, pelo que Quia me disse vocês vão notar boas diferenças do mundo que conheciam para o mundo que vivemos hoje.
- Certo, vamos embora, acorde aquele ser, aquele macaco, sei lá o que é aquilo, e leve-o junto, pelo visto alguém anda comendo muita carne por aqui e não seria saudável para ele ficar.
- Festis, ainda não encontramos nenhum inimigo por aqui, este lugar parece abandonado, exceto pelo fato de que eu vi uma sombra e logo em seguida a entrada foi desmoronada, fechando a saída.
- Não está abandonado, com certeza, pois esses ossos são frescos, ao menos uma parte deles. Existem muitos outros túneis, vamos por um deles antes que resolvam se alimentar de nós, pegue o macaco. – Festis foi na frente e logo notei ele cochichando consigo mesmo. - Aqui está tudo muito triste né? Vou embora, não quero prejudicar meu bom humor.
- O que disse Festis?
- Um grande foco de terror se aproxima, alguém que está com muito medo está bem perto, vindo... devagar... por... ali.... – Aponta para um túnel no outro lado do salão. – Esconda-se nos ossos.
                Pulei em direção a uma pilha grande de ossos e me escondi, pude ouvir alguém chorando aterrorizado e logo surgiu a imagem, uma mulher magra, com seu corpo todo cheio de hematomas e alguns cortes sendo arrastada pelo chão por uma velha, magricela, com unhas grandes, nariz pontiagudo e carregando dois crânios amarrados em sua cintura com um pequeno punhal enfiado em cada um. Suas roupas eram trapos rasgados e os poucos cabelos que tinha eram trançados em pequenas quantidades.
                Em um instante vimos ela passando a mão sobre a cabeça da mulher que logo apagou em um sono profundo, senti um forte desejo de dormir nessa hora, mas resisti, Simbio já estava apagado, agora entendi o porque dele ter dormido, ela deve ter poderes.
Permaneci ali, intacto, eu estava longe de Festis, não conseguia vê-lo pois um crânio me barrava a visão, continuei olhando para aquela velha estranha que logo tirou um de seus punhais e começou a carnear a mulher ainda viva, porém dormindo. A cena me causou um mal estar e sem querer gemi de nojo, a velha olhou em minha direção naquele exato momento e pude claramente entender o medo que Festis havia sentido, eu estava apavorado, mesmo querendo ajuda-la.
- Quem ousa entrar no domínio das Bruxas? Além de nós, só alimentos aqui. – Fiquei quieto e logo ela continuou. – VAMOS, SAIA JÁ DE ONDE ESTIVER SE ESCONDENDO. Quero saber se é mais gostoso do que essa coitada que é pele e osso, faz tempo que não como carne de verdade.
Meu medo começou a me dominar, mas eu me segurei firme e senti que alguma coisa me motivava a ficar ali parado, como se houvesse uma força, uma coragem que ia de encontro com o medo que a bruxa me causava, me sentia forte para resistir.
                Após um tempo da bruxa me encarando e eu ainda parado, ela simplesmente voltou a esquartejar e carnear a mulher que mantinha suspensa no ar segurando suas pernas com apenas uma mão. Eu não tinha mais o que fazer para ajudar aquela pobre moça já morta, só prezava pela minha vida e de meus companheiros nesse momento.
                Aguardamos um tempo escondidos até que a bruxa começasse a comer, assim teríamos uma vantagem contra ela e logo esse momento chegou. Festis partiu para cima da bruxa com uma espada de madeira, como se aquilo fosse sua arma mais mortal, mas o que eu não esperava é que realmente era sua arma mais mortal.
                Cada golpe dado gerava um impacto como se sua força fosse dez vezes maior e sua lamina cortava como se fosse de ferro, mas era um simples e hilária espada de madeira. Com a ofensiva sobre a Bruxa, Festis me deixou um vão, um ponto onde eu poderia ataca-la sem que ela visse, mas minha investida foi travada por outra bruxa que logo surgiu com suas unhas enormes segurando meu braço.
                No momento que meu braço foi agarrado eu tentava me soltar, mas a força que me segurava era incrível, então Festis viu que havia a outra bruxa, parou de atacar a primeira, colocou a espada na cintura e estendeu uma mão para cada bruxa. As bruxas foram em direção a ele, como se ele fosse um amigo e então quando elas tocaram a mão do palhaço algo muito estranho aconteceu, as bruxas simplesmente começaram a se atacar em uma luta que eu não pretendia assistir.
                Festis me chamou e fomos correndo para uma saída, peguei Simbio soterrado pelos ossos e enquanto andava acordei ele com algumas chacoalhadas. Conseguimos chegar a uma saída, Festis voltou para sua ametista e então peguei o voo particular de volta para casa. Agora eu já tinha duas das pedras planares.
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