1 de setembro de 2010

Vôo 425 da Worldplane some dos radares!


Estávamos ali, tranqüilos e alguns até dormindo. Nosso vôo seguia calmo sob o céu da América do Sul, em direção ao continente asiático.
Enquanto cruzávamos o oceano a aeromoça nos informou que teríamos uma breve turbulência, deveríamos nos manter calmos que durariam poucos minutos e não acarretaria nenhum risco ao avião.
Alguns ficaram apreensivos com a informação, outros continuaram lendo seus livros como se nada estivesse acontecendo.
Após três minutos que a aeromoça desligou o comunicador nosso avião foi recoberto por uma nuvem negra e as trepidações começaram. Balanços mais fortes que até para mim foram assustadores.
Meu nome é Rodrigo Gomes, tenho 35 anos e pratico diversos esportes, estava neste avião, como já estive em muitos outros, para participar de uma competição de luta mista, onde várias modalidades competiriam. Medo não fazia parte do meu vocabulário, ao menos até este momento.
“Senhoras e senhores passageiros, aqui é o comandante Patrick e informo que precisaremos realizar um pouso de emergência, pois a turbulência danificou uma de nossas turbinas, pousaremos em uma ilha logo abaixo de nós, apertem os cintos e mantenham-se calmos.”
Foi agora que o medo passou a fazer a parte da minha vida, no momento em que o comandante se apresentou até o momento que ouvi o estalo do botão de desligar sendo pressionado.
Um alvoroço começou, gente gritando e chorando, mantive minha calma diante de tal problema, mas meus olhos se enchiam de lagrimas enquanto pensava na minha amada Carla, que rezava para eu voltar com o premio, pois estava grávida e prometi que seria minha ultima competição. O nome do nosso filho, que por coincidência era Patrick, havia sido escolhido por meus pais antes de serem internados por perderem a sanidade ao ter o filho mais novo assassinado, minha promessa de ultima luta era também para evitar que perdessem o outro filho, mas pelo visto não haveria tal luta.
O avião começou a perder altitude, cada vez mais instável e nada de ilha nenhuma aparecer na janela ao meu lado, fui ficando com mais medo e rezava, pedia a Deus para que cuidasse da Carla e do Patrick por mim e pedindo perdão por não poder estar com eles, nem sequer conhecer meu filho.
O avião se aproximava mais e mais da água quando consegui avistar uma ilha e pensei que estaríamos a salvo, mas o comandante informou naquele exato momento que não teríamos tempo de pousar, sofreríamos um impacto brusco, pediu para que ficássemos sentados e calmos para que ninguém se machucasse.
A fala já dificultada pelo medo, com alguns momentos em que gaguejava, assustou ainda mais os passageiros do vôo 425 da Worldplane, que logo sentiram o impacto do avião contra a água já na praia da ilha.
Um estrondo aterrorizador, o metal se retorcendo em nossas direções, pude ver algumas pessoas sendo mutiladas, tudo tremia muito e o cheiro ficou insuportável. Muitos gritos foram abafados pelo barulho de uma explosão que atingiu a parte traseira da aeronave e uma turbina foi arremessada à quase um quilômetro de distância do local do acidente.
Vi algumas lâminas de ferro passar muito próximas de mim, senti medo de ser atingido, mas a única coisa que me aconteceu foi uma mala de mão da passageira a minha frente que me atingiu na cabeça e me desacordou.
Sem saber quanto tempo exatamente fiquei desacordado, percebi que acordei na areia da praia, já a alguma distância do avião. Não sabia quem tinha me arrastado, mas tive certeza que fui salvo da morte quando vi a parte do avião que eu estava pegando fogo.
Levantei-me e me agrupei aos demais sobreviventes, um total de vinte e dois estavam ali, vivos ao meu lado e conversando e gesticulando sobre o que aconteceu e como faríamos.
A mente de alguns já foi longe: “Será que estamos na ilha de Lost?!” Mas a maioria estava aterrorizada demais para pensar em tais bobeiras.
Todos se apresentaram, sentamos e conversamos, não tínhamos idéia do que fazer para chamar a atenção ou avisar que estávamos ali.
Perdemos o piloto e co-piloto do avião na queda, que sabiam nossas coordenadas exatas, então nos restou as alternativas comuns.
Durante dias ficamos empilhando os restos do avião, queimando roupas, fazendo pirâmides de madeira seca que encontrávamos e ateávamos fogo, mas tudo foi em vão. Sobrevivemos por muito tempo com as comidas que tínhamos do vôo, mas muito tempo não era o suficiente, após 26 dias confinados naquela ilha, os humores começavam a mudar com mais intensidade, o estresse começava a dominar algumas pessoas e com mais facilidade entravam em paranóia.
Tivemos que amarrar alguns de nossos companheiros para evitar que se matassem, mas outros simplesmente não nos deixaram escolha. Vinte e dois sobreviventes que ali já se tornaram apenas doze. Uma das meninas que morreu estava grávida, o que me remeteu à lembrança de que tinha uma namorada e filho me esperando no Brasil.
“Ele já deve ter nascido, meu querido filho, Patrick, agora mais do que nunca o nome do meu filho, o nome do cara que nos poupou a vida mesmo entregando a sua.” – Pensava eu enquanto enterrava a menina grávida.
Meus treinos para manter a calma durante os combates me serviram muito bem, pois apenas eu e um paraguaio que falava português conseguíamos acalmar o resto do grupo, seu nome era Juan, um grande homem, mas tínhamos problemas com alguns que falavam outras línguas, como por exemplo o Richard, um Inglês que estava no Brasil à passeio com a esposa, mas teve que voltar antes dela à negócios.
Fomos todos cooperando uns com os outros e Richard tinha conhecimento de caça e nos ajudou também a conseguir comida, meu inglês era fraco, mas dava pra ajudar um pouco, fazíamos gestos e desenhos para nos comunicar, já estava até aprendendo algumas palavras em outras línguas.
No trigésimo oitavo dia Juan e eu fomos para a floresta à procura de frutas enquanto Richard acompanhado de Rivoer, um Francês que eu não me lembro de ter visto no avião, foram caçar alguns animais. Quando voltávamos, já os quatro juntos e com vários alimentos, nos deparamos com uma cena perturbadora. Os outros oito sobreviventes que restavam foram encontrados com os seus corpos mutilados, órgãos expostos ao sol e membros decepados jogados em cada canto da praia. Uma visão que não se esquece nunca e o medo que nos afligia agora era de saber o que mais habitava aquela ilha.
Rivoer checou os corpos e balbuciou algumas palavras em francês que não entendemos, então ele partiu para o desenho na areia. Após alguns desenhos e algumas palavras que conseguíamos traduzir ele mostrou que os cortes e mutilações foram feitas por um humano usando uma faca improvisada, de madeira ou pedra, provavelmente nativos da ilha. Nem quis saber de onde ele sabia tudo aquilo, imaginei que ele fosse perito ou médico.
Agora, de vinte e dois, restavam apenas nós quatro, com medo e vomitando durante a noite toda por ter visto aqueles corpos mutilados, conseguimos dormir e descansar um pouco, mas fazíamos turnos para evitar sermos pegos de surpresa.
Passamos uma semana com medo, escondidos e comendo só frutas para evitar ter que caminhar muito, andávamos em grupo e fizemos armas com galhos das arvores, Rivoer soube exatamente o que fazer, ele deve ter sido algum tipo de escoteiro na França.
Nas caminhadas curtas que fazíamos conseguimos chegar a um lugar que não tínhamos ido ainda, uma clareira no meio da floresta que logo Richard apontou uma armadilha, Rivoer foi desativá-la, esse francês começava a me assustar.
Seguimos andando pela clareira e nossos ouvidos captavam agora uns ruídos, como chocalhos de cascavel, mas uma grande quantidade deles.
Fomos apreensivos, mas tentamos nos aproximar, pois havia a chance de ser uma salvação e na pior das hipóteses, pelo menos teríamos paz como os outros 224 passageiros do vôo 425. Eu só pensava na Carla e no meu filho Patrick.
Quando chegamos próximo de um tipo de acampamento indígena, todos estavam com pequenos chocalhos de palha e dançando em volta de uma fogueira. Revoir nos chamou a atenção e desenhou no chão algumas coisas e fez algumas mímicas, ao meu entender ele quis dizer que faltavam órgãos nos corpos mutilados e que pelo visto estes órgãos estariam ali na caldeira que estava sobre o fogo.
Sem entender como ele tinha chegado a essa conclusão eu perguntei e a resposta foi simplesmente um dedo apontando uma grande forma com alguns órgãos humanos em cima, na hora entendi tudo e no susto Juan acabou pisando em um galho que quebrou, fazendo um barulho que os nativos conseguiram ouvir.
Todos olharam em nossa direção, mas conseguimos nos esconder. Eles vinham andando devagar e quando menos esperávamos, fomos descobertos.
Corremos para longe, mas fomos caçados durante um dia, fugindo e se escondendo, sabíamos que era impossível, eles eram nativos, conheciam este lugar como ninguém, mas para quatro pessoas que já sobreviveram 45 dias em uma ilha, fugir e tentar se esconder um pouco não seria tão difícil.
Eu, que era um lutador, conseguia me livrar de um ou outro nativo que nos encontrava, mas quando em grande número, nós fugíamos para fazê-los se separar. Rivoer também sabia lutar muito bem e ajudou a combatê-los.
Eu nunca tinha matado ninguém, mas naquele dia me senti obrigado, pois custaria minha sobrevivência. Minha consciência pesava, mas eu pensava no meu Patrick e na minha Carla.
Por um dia conseguimos fugir, mas no segundo dia fomos capturados, não houve alternativas nem escapatórias. Fomos amarrados e carregados pela floresta até o mesmo lugar de onde fugimos.
Os nativos falavam uma língua estranha, faziam gestos e nos carregavam para o meio do acampamento, quando nos largaram no chão eu consegui ouvir um barulho de helicópteros sobrevoando a ilha, como o acampamento ficava em um local aberto foi fácil para os helicópteros nos encontrarem e pessoas armadas e vestidas com coletes desceram por cordas no meio da mata e começaram a matar os nativos com tiros certeiros, eram profissionais, fiquei sem entender nada, mas o importante é que estávamos sendo salvos, ao menos era o que parecia.
O grupo de homens armados nos desamarrou e começou a falar francês com Rivoer, lhe entregaram um colete e uma arma, no seu colete só pude entender a palavra “POLICE”.
Logo entendi tudo, nos levaram embora de helicóptero após matar todos os nativos que estavam ali e então depois de mais de cinqüenta dias confinados na ilha e de termos sido obrigados a fazer coisas horríveis como matar outros humanos para sobreviver, fomos para casa.
Quando cheguei ao Brasil, nem pude acreditar, minha namorada, que pedi em casamento no próprio aeroporto, e meu filho lindo, Patrick, estavam me esperando, contei tudo a ela e continuamos nossas vidas felizes.
Infelizmente nem todos tiveram essa sorte, mas os que conseguiram mudaram para sempre suas vidas. Eu parei de lutar, nunca mais viajei de avião e não matava mais nem uma mosca.
Sonhei por anos com a cena dos corpos mutilados e tinha enjôos com freqüência e não conseguia comer por imaginar as tripas de meus companheiros no meu prato. Aterrorizador, mas pelo menos estava vivo, casado e com um filho lindo.
Somos conhecidos até hoje como “os 4 sobreviventes do 425”, mas no fundo o que queríamos era não ter nenhum apelido que nos fizesse lembrar aqueles terríveis cinqüenta dias.
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